Pretendo apresentar as produções dos meus alunos ao longo do ano letivo. Em outras oportunidades, mostraremos textos e/ou vídeos que considerarmos pertinentes.
Aos passantes, desejamos boa leitura.
Aos copistas, desejamos bom proveito.
Aos leitores qualificados, agradecemos, sinceramente
Aos copistas, desejamos bom proveito.
Aos leitores qualificados, agradecemos, sinceramente
"Desafios"
"A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e convivência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafios"
Martin Luther Kink Jr
Martin Luther Kink Jr
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Criança não trabalha
Criança Não trabalha
ARNALDO ANTUNES
Lápis, caderno, chiclete, peão
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria,
Tambor, gritaria, jardim, confusão
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria,
Tambor, gritaria, jardim, confusão
Bola, pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar,
Pula sela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia,
Pirata, baleia, manteiga no pão
Banho de rio, banho de mar,
Pula sela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia,
Pirata, baleia, manteiga no pão
Giz, merthiolate, band aid, sabão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca,
Botão. pega-pega, papel papelão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca,
Botão. pega-pega, papel papelão
Criança não trabalha
Criança dá trabalho
Criança não trabalha
Criança dá trabalho
Criança não trabalha
1, 2 feijão com arroz
3, 4 feijão no prato
5, 6 tudo outra vez
3, 4 feijão no prato
5, 6 tudo outra vez
Poemas - Infância / adolescência
Meus
Oito Anos
Cassimiro
de Abreu
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Como são belos os dias
Do despontar da existência !
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor !
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar !
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !
Oh ! dias de minha infância !
Oh ! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar !
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Casimiro de Abreu
http://poemasdomundo.wordpress.com/2006/06/14/meus-oito-anos/
O ADOLESCENTE
A vida é tão bela que chega a dar medo,
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita, mas
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita, mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para a frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.
o jovem felino seguir para a frente farejando o vento
ao sair, a primeira vez, da gruta.
Medo que ofusca: luz!
Cumplicemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
- vestida apenas com o teu desejo!
A vida é nova e anda nua
- vestida apenas com o teu desejo!
Mario Quintana - Apontamentos de História Sobrenatural.
Poemas - Infância
Criança
Não trabalha
Arnaldo Antunes
Lápis,
caderno, chiclete, peão
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria,
Tambor, gritaria, jardim, confusão
Sol, bicicleta, skate, calção
Esconderijo, avião, correria,
Tambor, gritaria, jardim, confusão
Bola,
pelúcia, merenda, crayon
Banho de rio, banho de mar,
Pula sela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia,
Pirata, baleia, manteiga no pão
Banho de rio, banho de mar,
Pula sela, bombom
Tanque de areia, gnomo, sereia,
Pirata, baleia, manteiga no pão
Giz,
merthiolate, band aid, sabão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca,
Botão. pega-pega, papel papelão
Tênis, cadarço, almofada, colchão
Quebra-cabeça, boneca, peteca,
Botão. pega-pega, papel papelão
Criança
não trabalha
Criança dá trabalho
Criança não trabalha
Criança dá trabalho
Criança não trabalha
1, 2
feijão com arroz
3, 4 feijão no prato
5, 6 tudo outra vez
3, 4 feijão no prato
5, 6 tudo outra vez
Infância
Meu pai
montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No
meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe
ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe
meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
no mato sem fim da fazenda.
E eu não
sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Minha Infância
Cora Coralina
(Freudiana)
Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam - eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto,
veio outra que ficou sendo a caçula.
Quando nasci, meu velho Pai agonizava,
logo após morria.
Cresci filha sem pai,
secundária na turma das irmãs.
Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam - diziam:
“- Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente.”
Tinha medo das estórias
que ouvia, então, contar:
assombração, lobisomem, mula-sem-cabeça.
Almas penadas do outro mundo e do capeta.
Tinha as pernas moles
e os joelhos sempre machucados,
feridos, esfolados.
De tanto que caía.
Caía à toa.
Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“- Levanta, moleirona.”
Minhas pernas moles desajudavam.
Gritava, gemia.
De dentro a casa respondia:
“- Levanta, pandorga”.
Caía à toa...
nos degraus da escada,
no lajeado do terreiro.
Chorava. Chamava. Reclamava.
De dentro a casa se impacientava:
“- Levanta, perna-mole...”
E a moleirona, pandorga, perna-mole
se levantava com seu próprio esforço.
Meus brinquedos...
Coquilhos de palmeira.
Bonecas de pano.
Caquinhos de louça.
Cavalinhos de forquilha.
Viagens infindáveis...
Meu mundo imaginário
mesclado à realidade.
E a casa me cortava: “ menina inzoneira!”
Companhia indesejável - sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.
A rua... a rua!...
(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
- proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
- emparedavam.
A rua. A ponte. Gente que passava,
o rio mesmo, correndo debaixo da janela,
eu via por um vidro quebrado, da vidraça
empanada.
Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.
Contenção... motivação... Comportamento estreito,
limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim...
Um mundo heroico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.
E a casa alheada, sem pressentir a gestação,
acrimoniosa repisava:
“- Menina inzoneira!”
O sinapismo do ablativo
queimava.
Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar...
E a certeza de estar sempre errando...
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.
Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre...
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.
Eu era triste, nervosa e feia.
Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
“- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido!”
Melhor fora não ter nascido...
Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
- ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.
Sem carinho de Mãe.
Sem proteção de Pai...
- melhor fora não ter nascido.
E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.
©CORA CORALINA
In Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais, 1965
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 19 de maio de 2014
domingo, 4 de maio de 2014
O Magnífico Artista
Ana Elizabete
"E nada como um dia após o outro pro
meu coração. E não vale à pena ficar, apenas ficar chorando, resmungando até
quando, não, não, não." E como já dizia Jorge Maravilha: " Você não
gosta de mim, mas sua filha gosta".
O
famoso Jorge Maravilha ficou famoso pelo mundo todo, e mais famoso ainda ficou
o dono desse pseudônimo, Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como
Chico Buarque (19 de Junho de 1944, Rio de Janeiro), 4º filho do historiador
Sérgio Buarque de Hollanda e da pianista amadora Maria Amélia Alvim Buarque.
Cresceu cercado de intelectuais e desde pequeno foi intensamente influenciado
pela arte, quando escutava músicas carnavalescas do radinho de sua babá e
quando ficava horas na biblioteca de seu pai. Brincava com seus irmãos e
gostava de criar filmes em caixa de sapato.
Uma
grande influência para Chico foi Vinicius de Morais, amigo de seu pai. O
intelectual era apaixonado por literatura, lia livros de autores franceses,
alemães e russos, considerados inadequados para sua idade. Sempre adorou rock e
teve grande influência estrangeira, por outro lado admirava Noel Rosa, Ismael
Silva e Ataulfo Alves. Aos 14 anos começou a compor, mas só aos 15 teve sua
primeira composição "verdadeira", " Canção dos Olhos". Em
1961 apresentou "Marcha para um dia de sol" em um show estudantil.
Nesta
época o Brasil passava por um momento de grande desenvolvimento econômico, que
despertava discussões aos rumos que o país devia tomar, principalmente na
política.
Apesar
de ter achado sua fonte de inspiração para seus sambas, valsas, marchinhas e
principalmente para suas composições, Chico sabia que tinha que continuar os
estudos, assim, fazendo faculdade de letras aos 19 anos, porém desistiu por
gostar de arte e acabou prestando vestibular na FAU em São Paulo. Foi perdendo
o interesse pelos estudos, já que queria mesmo era cantar, compor e escrever
letras como suas maiores influências, João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de
Morais.
Em 1964, a esperança, liberdade e
direitos foram cortados do povo da pior forma que alguém seria capaz de
imaginar. O golpe militar foi deflagrado e os militares tinham total poder e
representatividade diante do desenvolvimento político do país. Além disso, foi
uma época marcada pela censura, e pela falta de opção, tanto política, quanto
social dos brasileiros. Vários músicos, artistas e poetas tiveram que enfrentar
a censura, os jornais, trocavam as notícias importantes por receitas, para
mostrar que os militares estavam no poder e o povo tinha perdido, inclusive
detinham e puniam qualquer um que se opusesse contra esse governo.
Quando o Compositor apresentou
"Canção dos Olhos" no programa Primeira Audição, gravado pela Record,
decidiu se dedicar apenas a sua música e deixou o curso de arquitetura. Depois
disso, Chico foi convidado a se apresentar no programa O Fino da Bossa, cantou
"Tem mais Samba", música que marcou o início da sua carreira. Este
programa lançou grandes artistas como Nara Leão, Elis Regina e entre outros.
No seu primeiro disco, a música
"Pedro Pedreiro" conta a história de um operário que espera uma vida
melhor. Ele citou a palavra 'esperando' várias vezes, para representar a
musicalidade de um trem.
Foi em um show estudantil que conheceu
Gilberto Gil e Caetano Veloso, grandes representantes do tropicalismo,
movimento musical que sacudiu o ambiente da MPB de 1967 a 1968. Além de
participantes da tropicália, Gil (26 de junho de 1942) e Caetano (07 de agosto
de 1942) tiveram grande influência na vida política do país, já que suas músicas
eram extremamente contra o regime, já que foram censuradas várias vezes, até
presos em 1968 e exilados para Londres de 1969 a 1972.
O compositor foi chamado em 1965, por
Paulo Freire para musicar a peça "Morte e Vida Severina" (João Cabral
de Neto Melo). O espetáculo fez tanto sucesso com sua naturalidade de texto
mais a qualidade das músicas, que venceu o Festival de Teatro Universitário de
Nancy, França.
"A minha gente sofrida despediu-se da
dor, pra ver a banda passar cantando coisas de amor", foi com "A
Banda" interpretada por Nara Leão, que Chico dividiu o primeiro lugar com
"Disparada" de Geraldo Vandré no II Festival de MPB da TV Record em 1966.
A partir daí, a vida do grande músico começou a mudar. Ele passou a viver
apenas da música, e "A banda" foi tão adorada que vendeu milhões de
cópias, traduzidas para várias línguas e até tocada para a troca da guarda de
honra do palácio de Buckingham, Inglaterra.
Com
todo esse sucesso Chico Buarque gravou seu primeiro LP e seu nome foi aprovado
no conselho superior de MPB do MIS- Rio de Janeiro. Ainda em 1966 teve sua
primeira desavença com a censura, visto que a canção "Tamandaré" não
pode ser tocada por criticar a desvalorização do cruzeiro novo.
Chico participou de muitos programas de
televisão e rádio, e foi em um desses que conheceu Tom Jobim e tiveram sua
primeira parceria com "Retrato em Preto e Branco", canção composta
por ambos. Foi nessa época que conheceu sua primeira mulher, a atriz Marieta
Severo e juntos tiveram três filhas a Silvia, Helena e a Luísa.
Finalmente, no ano de 1967 lançou seu
segundo LP, e recebeu o título de cidadão honorário paulistano. Além disso,
escreveu duas peças bem conhecidas como Roda Viva e a infantil O Patinho Feio.
Nessa época, embora tudo parecesse um
mar de rosas, o Brasil continuava em uma situação política muito difícil. O
atrito entre estudantes e militares aumentava gradativamente, uma vez que havia
a permanência da ditadura. Com isso o povo se mobilizou, mas principalmente os
músicos, professores, intelectuais, mães e artistas, incluindo o próprio Chico,
que participou da passeata dos Cem Mil, manifestação no Rio de Janeiro contra o
regime militar.
Desconfiado, o exército convocou Chico
para esclarecer sobra Roda Viva, que foi considerada subversiva, tendo o teatro
invadido e artistas espancados e sobre sua presença na manifestação.
À medida que os anos foram passando, a
vida política no Brasil não melhorou. No ano de 1968 o Ato Institucional 5 foi
promulgado, trazendo consigo a legalização da tortura e o que mais afetou os
artistas: a censura.
A partir desses anos, os tropicalistas
mudaram seu jeito de compor, escrevendo de forma inovadora, e Chico acompanhou
essa mudança, compondo músicas sobre o cotidiano, rotinas e política, de forma
poética, abandonando os temas nostálgicos.
Os artistas tiraram proveito da
"onda" dos festivais para protestar contra a política do país. Chico,
como um artista muito adorado, continuava sendo muito premiado com suas canções
entre elas "Sabiá", que apesar de ter
ganhado o II Festival Internacional a Canção, o povo protestou e ela foi
vaiada.
Como nem Chico "escapou" do
AI-5,época em que muita gente, incluindo artistas famosos, foram presas e
torturados, teve suas canções proibidas. Ele e Marieta, para fugir da real
situação do Brasil, partiram em 1969 para França, auto-exilando-se, e só
retornaram um ano depois, em 1970. Fazia shows, gravava discos, fazia apresentações
nas televisões italianas e "A Banda" continuou fazendo grande
sucesso. Porém como tudo que é bom dura pouco, o grande músico passou a ter
problemas financeiros e para resolver esse problema pediu ao seu amigo, que
também era violinista, Toquinho, que viajasse até Roma para fazerem shows, mas
as apresentações foram um verdadeiro "fiasco". Até tentou gravar
outro LP, tendo de compor às pressas. Por outro lado a gravação não o agradou,
o que o carioca realmente queria era voltar ao Brasil, mas a censura a imprensa
brasileira não permitiam.
Mesmo com a censura, em março de 1970,
Chico voltou ao Brasil dando de cara com um país totalmente alegre por causa da
Copa do Mundo, com um sentimento nacionalista apoiado pelos generais, já que o
governo se aproveitou da Copa para aumentar a propaganda favorável ao Regime e
desviar a atenção das críticas.
"Apesar de você amanhã há de ser outro
dia, você vai se dar mal etc e tal". Diante disso, Chico escreveu
"Apesar de você" e enviou para a censura e para a sua surpresa a
canção foi aprovada. A música foi feita para o presidente da República o
Médicci, ao AI-5 e a submissão em que os brasileiros viviam. Um jornal comentou
a quem a música se referia e quando os militares descobriram, invadiram a
fábrica da Philips e apreenderam todos os discos. Chico foi cruelmente
interrogado e teve as letras de suas canções censuradas, e quase nenhuma de
suas canções eram liberadas pela censura e as poucas que eram tinham seus
títulos trocados e palavras substituídas.
Mudou novamente o estilo de suas canções,
quando se viu no dever de fazer um trabalho mais sério. No ano seguinte, as
letras do seu novo LP, Construção, tratavam de temas mais realistas e do
cotidiano. Seus problemas aumentaram quando os censores começaram a invadir seu
camarim durante os shows e quando as intimações para depor começaram a chegar
toda hora.
Em 1973, no show com Gilberto Gil, a
música "Cálice" foi proibida de ser cantada, cujo refrão " Pai
afasta de mim esse cálice" representava a opressão em que os brasileiros
estavam vivendo. Sendo assim, tiveram seus microfones e foram obrigados a se
calarem diante da multidão.
Diante de tantas canções vetadas e
perseguição acirrada, para 'despistar' a censura, Chico criou o pseudônimo de
Julinho de Adelaide, e foi com esse nome que a censura deixou passar canções
críticas como "Jorge Maravilha", "Acorda Amor" e
"Milagre Brasileiro". Assim que começou a fazer sucesso, a imprensa
descobriu sua real identidade, então a polícia Federal decretou que todas as
músicas enviadas para a aprovação da censura deveriam ter a cópia do RG e CIC
(antigo CPF) do autor.
Os militares consideravam absurdo
discordar do regime e se expressar pela arte, e como os censores não lhe davam
trégua Chico parou de fazer shows, de gravar e de escrever suas canções. Por
outro lado gravou um disco cantando músicas de outros artistas: "Sinal
Fechado".
Como além de compositor, seresteiro,
poeta, cantor, 'adaptador' de poemas para balé e 'recriador' de tragédias
gregas, Chico também é escritor e para as crianças escreveu Chapeuzinho
Amarelo, livro inspirado na sua filha Luísa, demonstrando o desejo das crianças
crescerem livres e se medo. Também traduziu e adaptou "Os
Saltimbancos", história da aventura de animais que fugiram de seus donos
em busca de uma vida melhor.
Com a volta da democracia, Chico voltou
a gravar e se apresentar na TV. Em 1990 escreveu vários romances, como Estorvo
que foi adaptado para roteiro cinematográfico. Anos depois foi homenageado pela
escola de samba Mangueira, que acabou ganhando.
Chico Buarque tem o dom de extrapolar os
tons e semitons, utilizar a metáfora e combinar notas e dissonâncias tonais,
resultando em uma obra harmonicamente perfeita. Além disso, tem o poder de
atrair o público feminino, com suas canções apaixonadas, delicadas e singelas,
porém podemos encontrar "a mulher em Chico", e a razão desse eu-
feminino está na ideia de que a mulher depende da conquista e no caso de suas
músicas, pretende compartilhar algumas reflexões sobre quem as mulheres podem
ser.
Com tanto sucesso, não é à toa que Chico
tenha ganhado prêmios importantes como o Grammy Latino de Melhor Canção
Brasileira, Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB e 3 prêmios Jabuti.
Sem
dúvida, Chico é extraordinário em tudo que faz!
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